O meu mundo com
os cães

Jerson Dotti

 

Eu não sei quanto tempo faz que eu gosto de cães.Talvez desde menino, quando os cães eram para mim amigos do dia a dia, aqueles que estavam sempre presentes quando nossos pais não estavam.
Eu nunca tive um cão propriamente meu, pois eles ficavam nas ruas e todos os vizinhos cuidavam, davam comida e eles eram de todo mundo e ao mesmo

tempo não tinham ninguém. Lembro, que havia um em especial, era uma menina, eu a chamava de Marôta, toda malhada, linda ela!!! Essa cachorra era inteligente e vinha atrás de mim toda vez que ia para escola para ganhar um pedaço do meu lanche. Quando minha família resolveu adotá-la ela sumiu... mas será que sumiu mesmo???

Essas perguntas e tantas outras ficavam passando pela cabeça de todas as crianças da minha rua, qual seria a verdade sobre aqueles cães que tanto gostávamos, mas que ao mesmo tempo desapareciam quando queríamos que eles estivessem dentro de casa? A imaginação da criança é fértil e muitas vezes ela cria histórias mirabolantes para se proteger da verdade.
Me disseram uma vez que a Marôta foi embora, porque ela ouviu que tomaria banho... e eu acreditei... , outra vez disseram que ela sumiu porque ela tinha arrumado um namorado... e eu acreditei... em quantas mentiras acreditei?

Não queria aceitar o fato de que alguém a tivesse levado de perua para um local bem longe e tivesse nos separado, isso era inaceitável, então era mais fácil conviver com as fantasias de seres celestiais transformando a Marôta, numa linda princesa e tivessem arrumado um castelo para ela... Puxa que imaginação!!!

Quando era adolescente tive outro amigão, ele era de uma vizinha, mas quem o levava pra passear era eu. Naquela época, meados dos anos 70 , eu já era passeador. O nome dele era Polli, um vira lata misturado com pequinês, todos os dias o levava antes e depois da aula para ver os amigos soltos do bairro e conversar com ele. Queria ter o meu Polli, mas o início do trabalho diário e a falta de dinheiro não me permitiriam zelar pelo futuro amigo. Então continuei a ter meus amigos de terceiros amigos.

O tempo foi passando, tive muitos amigões, quando finalmente com os meus 32 anos conheci de perto o que é ter um cão de verdade, ou seja, quando você é responsável por ele, quando ele só tem você e quando o entusiasmo toma conta e você fatalmente faz a família crescer. Sim, tive três lindos cães e cheguei a ter oito cães ao mesmo tempo, numa casa de campo no interior de São Paulo, onde morei por anos. Foi assim que a paixão por cães se
transformou em amor e de lá pra cá, aprendi muito com eles e também percebi o quanto minha vida mudaria por causa deles. Nasceu, então, o Projeto Cão do Idoso e a OBIHACC ações vivas e contínuas que comprovam os benefícios dos animais para os seres humanos.

Acredito que existem inúmeras maneiras do ser humano se conscientizar sobre a compaixão, amor pelo outro, conhecer-se, elevar-se, mas certamente uma delas é o convívio com os animais e com a natureza. Observá-los é quase que uma aula em silêncio. Eles nos dão uma amplitude de visão sobre o que nos rodeia, que faz com que tomemos ciência da importância da natureza em nossas vidas e o respeito por todos os seres, incluindo aí o próprio homem.

Agradeço ao Universo, pelas oportunidades de convívio com os cães, que me ensinaram a preservar em mim um pouco da criança que fui, que imagina, que sonha, e que acredita num mundo melhor.

Jerson Dotti
Fundador do Projeto Cão do Idoso
Presidente da OBIHACC